“Quando ela volta a me olhar, me reconheço no brilho dos seus olhos — como se existisse algo que ela domina também em mim. Não quero e não posso recuar. Eu a encaro, e percebo o cenário que faz pano de fundo às suas costas… Estátuas de pedra.”

As sereias são criaturas mágicas que habitam o imaginário humano desde tempos remotos. Histórias e lendas sobre elas estão presentes na cultura de diversos povos, do oriente ao ocidente. Fihama, do autor João Pedro Mask é uma história que nos leva a um mergulho nesse universo de encantamento que cerca as sereias.

A trama conta a história de Fihama, uma jovem que vive com sua família em uma aldeia isolada no Amazonas. Um dia uma catástrofe acontece em sua aldeia e a partir daí a vida de Fihama toma um rumo inesperado e ela inicia uma jornada de autoconhecimento que poderá levá-la a um caminho sem volta.

Fihama é uma garota marcada por abusos cometidos pelo próprio pai e tem dentro de si um sentimento de não pertencimento muito forte. Fihama não sabe explicar o que é, mas não se sente confortável dentro da própria pele, tampouco naquela aldeia. É como se não fizesse realmente parte daquele lugar.

Apesar dessa situação de sofrimento ela tem uma ligação muito forte com Arantxa, sua irmão caçula, por quem seria capaz de qualquer sacrifício. Com sua mãe, Simencía, tem uma relação um pouco mais distante, mas apesar disso a ama.  E é esse amor que ela sente por sua família que a levará ao coração da Floresta de Canais onde encontrará coisas há muito tempo enterradas envolvendo seu passado.

Em uma trajetória de autodescoberta Fihama percebe que sua identidade esconde algo que ela não conhece e essa descoberta a obrigará a fazer uma escolha que afetará não só a sua própria vida, mas também a todas as pessoas que ama.

Créditos da foto: Leia com a gente

Impressões da Michele

Fihama é a novela de estreia de João Pedro Mask, mas nós do Leia com a gente temos a honra de poder dizer que já a conhecemos faz um tempinho. A história de Fihama nasceu em um curso de escrita criativa que a Gislaine e eu cursamos junto com o João. No decorrer das aulas acompanhamos o desenvolvimento da personagem em exercícios e contos curtos que o João apresentou. Desde o primeiro contato com Fihama eu já a imaginava como uma possibilidade de algo maior, na minha opinião essa novela pode dar início a outras histórias derivadas do universo criado pelo autor.

Ao ler o texto completo da novela percebi que o autor foi além, criando uma mitologia própria para o universo de Fihama. Os elementos inseridos na trama se revelam originais e contextualizados na cultura brasileira. Achei isso incrível, pois a maioria dos livros sobre sereias que conheço as apresenta com referências pertencentes a outras culturas. Ao ler Fihama o leitor com certeza sentirá uma identificação cultural.

A leitura é fácil e envolvente, também gostei muito dos nomes das personagens, que são diferentes e sonoros como o canto de uma sereia!

A mensagem que fica da história é a da descoberta da própria identidade e todo o processo de autoaceitação que isso envolve. Fihama não é só uma história sobre sereias, é uma história sobre como a descoberta de si mesmo pode ser difícil, mas como isso pode ser libertador.

Recomendo muito a leitura, uma história interessante, agradável de se ler e que tem uma mensagem muito bonita. Desejo também vida longa a Fihama, pois a trama merece continuações e outras histórias envolvendo esse universo!

Créditos da foto: Leia com a gente

Impressões da Gislaine

O João não veio para brincar.

A cena que inicia sua escrita, me permitiu se conectar a Fihama, personagem central da história, e sentir na pele o desespero e a angústia de ser uma presa fácil, sem ter para onde correr e sem ter forças para lutar.

Infelizmente, o estupro tem se tornado cada dia mais frequente e noticiado em nossa sociedade, e justamente por isso, gosto quando temas polêmicos são colocados em pauta, com os detalhes como na cena, pois nos permite se colocar no lugar do outro, e ver que não podemos fechar os olhos para qualquer tipo de violência.

Sem sombra de dúvidas, a novela se trata de autoconhecimento. Período complicado e frustrante quando se está na adolescência. Momento em que se vive num turbilhão de dúvidas, entre a descoberta do que você é, e o que você quer ser.  

Com Fihama não foi diferente. Foi ainda pior devido às condições dramáticas e de insegurança em que vivia dentro de sua própria casa.

Gostei da forma com que a narrativa foi crescendo. Fihama não se tornou FIHAMA de uma hora para outra. Os acontecimentos, os sonhos estranhos, as transformações em seu corpo, foram mudando a sua percepção do mundo, de ver que a vida não era somente aquilo que se apresentava a ela, existia um algo mais. E ela queria chegar a esse algo mais, mesmo que para isso, fosse necessário perder algumas coisas.

É engraçado como no meio do lixo ainda pode haver coisas bonitas. Como podemos pegar uma pedra, tão resistente e dura, e lapidá-la para transformá-la em uma joia. É mais ou menos isso que sinto sobre mim. De tanta violência e frustração, ainda assim nasceu paz.

No começo da leitura, ao ver a relação da Fihama com sua mãe e irmã, me fez lembrar, e acreditar que fosse seguir um pouco a mesma relação da Katniss Everdeen dos Jogos Vorazes, ao declarar que não tinha tanta aproximação com sua mãe, mas amava muito a sua irmã. Mas ao longo da leitura, gostei da desconstrução e a forma como que as duas foram se descobrindo como iguais.

Outro ponto que considero positivo, é o fato do João Pedro criar sua história baseada em um lugar do nosso país, pois nos permite desfrutar da brasilidade. Isso é importante porque fortalece o crescimento da nossa literatura.

Finalizando, eu entendi que Fihama sou eu… é você… somos nós, em uma busca de descobrir o nosso lugar no mundo. E que isso exige luta, às vezes perdas, sofrimento, mas que saber e aceitar quem somos, é um ganho que não tem preço.  

Fica aqui a dica de uma história que você precisa ler!!!

FICHA TÉCNICA

Título: Fihama

Autor: João Pedro Mask

Editora: Publicação independente

Gênero: Fantasia