“Em minha ingenuidade, cheguei a pensar que a distância, no espaço e no tempo, apagaria a marca do passado, mas nada pode mudar nossos passos perdidos.”

 

O Palácio da Meia-Noite é o segundo livro do autor espanhol Carlos Ruiz Zafón e faz parte da Trilogia da Névoa, composto ainda por O Príncipe da Névoa e As Luzes de Setembro. Apesar dos três volumes serem agrupados em uma trilogia, os livros são totalmente independentes, com personagens e cenários distintos, portanto podem ser lidos em qualquer ordem. O único elemento que as tramas tem em comum é a temática sobrenatural que Zafón sabe imprimir tão bem em suas obras.

 

Nesta trama o autor troca a velha Barcelona – cenário da maioria de seus livros – por Calcutá, na Índia, o que traz um tempero a mais para a narração, pois os cenários e paisagens exóticas da cidade indiana são muito interessantes e o autor é muito bom em inserir o local onde suas tramas se passam no contexto da história, quase como um personagem da trama.

 

“Os lugares que abrigam a tristeza e a miséria são o lar predileto das histórias de fantasmas e aparições. Calcutá guarda em seu rosto obscuro centenas dessas histórias, que, embora ninguém tenha coragem de confessar que acredita, sobrevivem na memória de gerações.”

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“Como você poderia medir um sentimento por alguém se não tem lembranças sobre ele?”

 

O que seria de nós sem as nossas lembranças? O esquecimento do passado afetaria nosso comportamento no presente? Nossos sentimentos permaneceriam os mesmos se nós simplesmente esquecêssemos todas as coisas, tanto as boas como as ruins, que nos aconteceram?

Essas perguntas me acompanharam durante toda a leitura de O gigante enterrado e é justamente essa reflexão que o autor nos convida a fazer através de sua obra. Kazuo Ishiguro – que acabou de ganhar o Nobel de Literatura 2017 – nos transporta a uma Grã-Bretanha medieval marcada por guerras entre bretões e saxões e povoada por cavaleiros remanescentes da época do rei Arthur, guerreiros valentes, ogros agressivos e uma dragoa que aterroriza a população.

Somado a tudo isso temos ainda uma maldição antiga, sob a forma de uma névoa, que provoca o esquecimento do passado em todos os habitantes do lugar. As pessoas esquecem coisas que acabaram de acontecer e tampouco lembram-se de seus passados. É como se todos vivessem apenas no presente, com poucas lembranças, que vez ou outra passam como flashes em suas mentes, para logo serem esquecidas.

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[RESENHA] Sonho Febril (George R. R. Martin)

“York levantou a cabeça, e os dois olhares se cruzaram. Até cumprir o resto de seus dias, Abner Marsh relembraria aquele momento, aquela primeira vez em que olhou dentro dos olhos de Joshua York.” (p.8)

 

O mito do vampiro existe em muitas culturas, das mais variadas civilizações. Lendas sobre criaturas imortais, que vagueiam na escuridão da noite à procura de vítimas para aplacar sua sede de sangue estão presentes no imaginário popular e reflete-se também na literatura.

Quem nunca ouviu falar do famoso Conde Drácula, retratado por Bram Stoker, do sedutor Lestat, criado por Anne Rice chegando até aos representantes mais recentes como Edward Cullen, da saga Crepúsculo ou Damon e Stefan, os charmosos irmãos Salvatore da série Diários de um Vampiro?

Pois esqueça tudo o que você já viu, leu ou ouviu falar sobre vampiros. Ao escrever Sonho Febril, o autor George R. R. Martin consegue uma proeza e tanto: desconstruir o mito do vampiro para criar algo diferente de tudo o que você já viu. Prontos para mergulhar nesse universo tão singular criado por Martin? Continue lendo

[RESENHA] Lugar Nenhum (Neil Gaiman)

“- Meu jovem, você precisa entender uma coisa. Existem duas Londres: a Londres de Cima – onde você morava – e a Londres de Baixo – o submundo – habitada pelas pessoas que caíram pelas fissuras do mundo. Agora você é uma delas.”

 

Lugar Nenhum foi meu primeiro contato com o escritor Neil Gaiman e foi amor à primeira lida ! Este é um dos primeiros romance do autor, talvez por isso não seja tão conhecido. Uma curiosidade que descobri pesquisando é que Lugar Nenhum foi lançado inicialmente como uma minissérie para a TV britânica e posteriormente, Gaiman resolveu escrever a história em forma de romance.

Na trama, Richard é um jovem escocês que vai morar em Londres em busca de oportunidades melhores, lá ele consegue um emprego, uma linda noiva e um amigo para todas as horas. Richard é um jovem normal com um futuro promissor, mas em uma determinada noite sua vida vira de cabeça para baixo, literalmente. Ao socorrer uma estranha jovem na rua algo inusitado e surreal acontece, Richard começa a ficar invisível, não no sentido literal, mas as pessoas que ele conhece passam a simplesmente não enxergá-lo, é como se ele tivesse deixado de existir.

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[RESENHA] Marina (Carlos Ruiz Zafón)

 

“Marina me disse um dia que a gente só se lembra do que nunca aconteceu. Ainda ia passar uma eternidade antes que eu pudesse compreender essas palavras.”

 

Marina, publicado originalmente em 1999, foi minha primeira leitura do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón e desde então me tornei fã do autor. Já li alguns de seus livros, mas Marina é, sem dúvida, o meu preferido.  Resenhar suas obras não é uma tarefa fácil, pois é muito difícil transcrever em palavras as sensações que sua escrita causa no leitor.

A trama gira em torno do jovem Oscar, que vive em um colégio interno em Barcelona e passa todo o seu tempo livre explorando as ruas da cidade, apreciando as estruturas dos antigos casarões. Em um desses passeios, ele é atraído por um gato para dentro de um casarão antigo e lá acaba conhecendo a doce e misteriosa Marina, que vive com seu pai, o amargurado Germán.

Uma forte amizade surge entre os dois, que passam a se encontrar com frequência em passeios pelos bairros antigos da cidade e é num desses passeios que o caminho dos dois cruza com o de uma mulher vestida de preto, uma figura sinistra e misteriosa que visita o antigo cemitério todos os dias. Oscar e Marina passam então a seguir a mulher e acabam esbarrando em um segredo tão antigo quando assustador. Paralelo a esse suspense existe ainda a relação entre Oscar e Marina, com diálogos fortes e encantadores.

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