Esse garoto me mete medo… ele tem o mal entranhado nas veias e um olhar demoníaco… (pg. 63)

Logo de cara o que me atraiu nesse livro foi o título. Para admiradora dos gêneros terror e horror, a obra não passou despercebida aos meus olhos. 

Ao iniciar a leitura me perguntei o que poderia haver de tão bizarro em um circo? A resposta, muita coisa!

Dentro desse universo colorido e risadas de alegria, se tornou o palco de um show de horrores. Em que gritos e sangue permearam todo o ambiente.  

A história esta divida em duas partes. A primeira vai ajudar a aguçar a sua curiosidade. Mas para evitar spoiler, parto direto para a segunda.

Crédito da foto: Leia com a gente

Gosto pela maldade

Serge, protagonista da história, desde cedo se mostrou uma criança diferente. Seu gosto pela maldade levava ao desespero sua pobre mãe, que não sabia como criá-lo. 

O garoto parecia ser desprovido de qualquer sentimento bom. Suas “brincadeiras” se baseavam na tortura de animais, e fazê-los cobaias de suas experiências malignas. As pessoas o temiam, inclusive seu padrasto que o considerava o mal encarnado. 

Num determinado dia, o Circo Tissot chega à cidade onde vive Serge. O comboio com tanta gente “estranha” atrai a atenção do garoto, que no mesmo instante deseja partir com os viajantes. Pierre Tissot proprietário do circo sente que deve levá-lo consigo. E tem o apoio da mãe, que triste fica com a esperança do filho vir a ser uma boa pessoa, mas também dela ter uma vida normal. 

Cuidado, meu bom homem – a voz grave do padrasto de Serge se fez ouvir. – Embora eu deva ficar muito feliz e aliviado com a partida desse garoto, devo alertá-lo que ele tem o sopro do diabo nos pulmões. Isso é o mal encarnado e o senhor poderá se arrepender de tal forma que… (pg. 65)

Citação Karl Kraus

Crédito da foto: Leia com a gente

Le Monde: di Bizarre

Pierre não descumpriu o que prometera a mãe de Serge, e o criou como se fosse seu filho. Investiu em sua educação contratando os melhores tutores por onde passavam. Serge se mostrava inteligente, e aprendia rápido o que lhe era ensinado.

Pierre sabia que o garoto era diferente, mas a constante tortura de animais o incomodava. Por isso, incentivou o filho, já jovem, quando ele iniciou os estudos de ocultismo, morte e corpo humano. Acreditava ser um meio de canalizar tal distúrbio. 

Diante da sua possível morte, Pierre pede a Serge que não pare o circo, mas que não o transforme em algo bizarro. Serge não engana o pai, a quem sempre respeitou, e deixa claro seus planos. Após a morte de Pierre, Serge assume o controle do circo, e segue com aqueles que aceitam a nova direção, dando início a sua jornada de horror no então “Circo Le Monde di Bizarre”.

Cartões sopro do diabo

Crédito da foto: Leia com a gente

Mundo: sombrio

A partir daqui você entra em contado direto com o lado obscuro de Serge. O enredo é horror puro, com uma pitada de fantasia. Houve partes em que fechei o livro, respirei fundo, e depois de recuperada dei continuidade a leitura. O livro é para QUEM GOSTA do gênero, do contrário não conseguirá apreciá-lo.

Serge muda a estrutura do circo, e novas pessoas são incorporadas ao “Le Monde di Bizarre” que passa a acolher pessoas excluídas pela sociedade por terem algum tipo de deficiência, e serem consideradas estranhas.

Durante todo o tempo eu não consegui responder se gostava ou não de Serge. Ele consegue causar uma mistura de sentimentos no leitor. Ao mesmo tempo em que repulsa seus atos, simpatiza com a forma que acolhe e cuida dos excluídos. 

– O senhor… quer dizer, você é um homem bom, Serge – disse Gavius, antes de morder um pedaço de pão.

– Não sou não, meu amigo. Não sou não. (pg.113)

Serge é ambicioso, e torna o circo um império, porém, quanto mais conhecido e famoso, mais terrível se torna. O circo passa a oferecer sessões monstruosas peculiares a um público seleto, que pagam altas quantias para serem exclusivos. E aqui fica cada vez mais claro que não existem pessoas normais.

Face sopro do diabo

Crédito da foto: Leia com a gente

Talvez ela não seja o que a sociedade espera em termos de beleza… esta bem, talvez não seja nem o que EU aceito como beleza, dentro do que falei há pouco, mas todos nós, Clarice… todos nós temos algo de belo e de horrendo, de bondoso e de cruel. Alguns mais, outros menos. Mais e menos de cada uma dessas coisas. (pg. 127)

O livro é muito bem escrito, o autor Marcelo Amado deixou correr solta sua imaginação. E de uma forma singular, fez críticas mostrando que no fundo somos todos iguais. 

Fora a história, o livro é uma obra de arte. Muito bem estruturado, e material de alta qualidade. Eu simplesmente fiquei apaixonada pelo capricho da Editora Estronho com o leitor. Sou fã.

Pra quem gosta de horror esse livro é uma ótima pedida.

Você vai se arrepiar, mas não vai largá-lo! 

 

Título: Ele tem o sopro do diabo nos pulmões

Autor: Marcelo Amado

Ilustrador: Gustave Doré

Editora: Estronho

Ano de publicação: 2016

Gênero: Horror / Literatura Brasileira

Páginas: 252

Até a próxima Terrófilos…