“Qualquer planeta é a Terra para aqueles que nele vivem”

Imagine que de um instante para outro você se veja num lugar muito, muito estranho e diferente de tudo o que você conhece. Você não sabe onde está e nem como foi parar lá. O sentimento de desorientação vai dando lugar ao de pânico. É para esse contexto que somos levados ao iniciar a leitura de Pedra no Céu, de Isaac Asimov.

Nosso protagonista, Joseph Schwartz, um alfaiate aposentado,  leva uma vida tranquila nos Estados Unidos da década de 50 quando, de um instante para o outro, é transportado acidentalmente para milhares de anos no futuro, como consequência de um acidente de laboratório envolvendo pesquisas nucleares. Schwartz se vê então em um lugar totalmente diferente do mundo que conhece, numa atmosfera hostil e cercado de pessoas que falam um idioma completamente desconhecido para ele.

O universo agora é composto por milhões de planetas habitados que integram o chamado Império Galáctico, que possui um governo central com sede no planeta Trantor. Schwartz ainda não sabe, mas o local estranho onde foi parar é a própria Terra, agora transformada em um planeta radioativo e quase inabitável. A Terra agora é um planeta periférico e marginalizado, os terráqueos são considerados uma raça inferior e sofrem um enorme preconceito racial por parte do restante do Império. Nosso planeta agora  não passa de uma “pedra no céu”.

“Acho que esses terráqueos são patifes e cafajestes, todos eles. Definitivamente são nossos inferiores intelectuais. Eles não têm aquela faísca que espalhou a humanidade por toda a Galáxia. São preguiçosos, supersticiosos, avarentos e não demonstram qualquer sinal de nobreza na alma.

Confuso pelo fato de que tudo ao seu redor mudou de repente, Schwarz procura ajuda, mas as pessoas ao seu redor não compreendem o que ele fala e acabam achando que ele possui problemas mentais. Schwarz acaba sendo enviado como cobaia ao Dr. Shekt e sua filha Pola, cientistas que trabalham na criação de um aparelho que aumenta expressivamente as capacidades intelectuais de quem o usa, chamado Sinapsificador. Após ser submetido a esse “tratamento” Schwarz tem sua capacidade intelectual expandida a um patamar inimaginável, o que faz com que ele não só compreenda exatamente onde está como também desenvolve um conjunto de habilidades mentais extraordinárias aos quais ele próprio dá o nome de “Toque Mental”.

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

A vida nessa Terra do futuro é muito difícil, o ar e o solo são radioativos, existindo poucas áreas habitáveis. Alimentos, bens e serviços são limitados, pois não há recursos naturais suficientes para todos. As pessoas precisam trabalhar para o governo se quiserem receber sua cota de recursos para sobreviver. Essa situação de miséria e escassez leva a adoção de um costume obrigatório nesta sociedade: o cidadão que atinge a idade de 60 anos é submetido a eutanásia, pois já não tem mais condições de produzir para o governo e sendo assim, não tem mais o direito de consumir os recursos do planeta.

“O que teriam eles a não ser sua fé. Sem dúvida, eles são privados de todo o resto: de um mundo decente, de uma vida decente. São privados até da dignidade da aceitação com base na igualdade por parte do resto da Galáxia.Então se recolhem dentro dos próprios sonhos.”

 

Neste contexto surge Bel Arvardan, um arqueólogo chega à Terra para estudar suas ruínas antigas. Ao contrário da maioria de seus colegas, ele acha que a teoria de que toda a espécie humana espalhada pelas Galáxias teve origem no planeta Terra e que este seria o berço da humanidade é real e não apenas uma lenda e quer encontrar evidências que provem isso. As pesquisas de Arvardan fazem com que seu caminho se cruze com o Dr. Shekt, Pola e Joseph Schwartz e juntos eles acabam descobrindo um plano dos rebeldes aliados à casta sacerdotal da Terra que tem por objetivo destruir o Império e libertar a Terra do jugo do Império.

Os terráqueos, no entanto, retribuiem os preconceitos dos habitantes dos outros planetas e para piorar as coisas a franja mais radical que acredita que o planeta Terra deve levar a galáxia em vez de Trantor está se preparando para uma nova rebelião contra o Império.

“– Enquanto se acreditar nisso, procurador, e enquanto nós da Terra formos tratados como párias, vocês encontrarão em nós as características às quais se opõem. Se nos pressionam além do tolerável, não é de estranhar que pressionemos de volta? Odiando-nos como nos odeiam, será que vocês podem reclamar que nós, a nosso turno, os odiemos também? Não, não, nós somos os ofendidos, e não os ofensores.”

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

Pedra no Céu está ligada à série Fundação, da qual é uma espécie de prequel e se passa no século IX da Era Galáctica, quando o planeta Trantor se tornou a capital do Império que governa toda a Galáxia, o que significa mais de dez mil anos antes da época da trilogia original da Fundação.

Em vários pontos da leitura me peguei pensando:como esse cara pode imaginar uma coisa dessas na época em que o livro foi escrito? Asimov, além de um excelente escritor era, antes de tudo, um visionário. Se você é fã de ficção científica precisa ler Asimov.

A trama usa a ficção científica para tocar em temas tristemente atuais como o racismo e a  xenofobia. Os terráqueos sofrem um preconceito racial muito forte por parte do restante da Galáxia, sendo por isso condenados a segregação. Para o restante do Império os terráqueos não são seres humanos e sim uma sub-raça.

Há também a questão da desigualdade social, presente no contraste de recursos e condições disponíveis no restante do Império e a situação miserável da marginalizada Terra. Além do menosprezo com que são tratados,eles sofrem restrições econômicas também, já que não conseguem participar do comércio de produtos ou serviços com os demais planetas, uma prática comum no Império e que os leva cada vez mais ao isolamento e miséria.

 

“Para o resto da galáxia, se é que notam nossa existência, a Terra é apenas uma pedra no céu.Para nós, é o nosso lar e o único lar que conhecemos. No entanto não somos diferentes de vocês dos mundos siderais, somos apenas mais desafortunados.”

 

Isaac Asimov tinha um conhecimento científico considerável, mas na época em que escreveu Pedra no Céu os efeitos a longo prazo da radioatividade sobre os seres vivos ainda eram desconhecidos. Anos mais tarde, o autor admitiu que a ideia da Terra tornada radioativa por uma guerra nuclear e ainda assim prosseguir habitada era um conceito errôneo, mas como este era o conceito central da trama de Pedra no Céu era impossível eliminá-lo em futuras edições. Sendo assim, Asimov inclui um posfácio onde explica tal fato. Meu conselho é seguir o pedido do autor e deixar um pouco esse fato de lado e simplesmente apreciar a história.

Pedra no Céu não pode não ser a melhor obra de Asimov, mas mesmo assim consegue ser original e prender a atenção, portanto não deixa de agradar aos fãs mais exigentes do autor.

 

Até a próxima e continuem lendo com a gente!

 

 

Título: Pedra no Céu
Autor: Isaac Asimov
Editora: Aleph
Gênero: Ficção-científica

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