“O vilarejo, se existiu em algum momento, sumiu do mapa.”

 

Olá bibliófilos!

 

Começo esse texto com o pensamento que tive ao terminar a leitura desse livro: Caramba !

O Vilarejo é um livro que provoca uma série de sensações: desconforto, choque, repulsa e uma pontinha de medo, mas acredite, você vai devorar o livro sem nem perceber. Eu, particularmente, não leio muitos livros de terror e tenho um certo limite que não costumo ultrapassar, mas O Vilarejo é tão interessante e tem uma escrita tão envolvente que li numa boa e ainda gostei muito! Portanto se você é como eu e tem um certo receio de se aventurar neste gênero, fique tranquilo e leia sem medo!

” O velho estava certo. O vilarejo está sendo dizimado dia após dia. O luto sentou-se à mesa. Ninguém chora os mortos. Não podem desperdiçar energia lamentando a partida dos que não suportaram o frio e a fome.”

O Vilarejo

Créditos da foto: Leia com a gente

 

O autor é o brasileiro Raphael Montes, um escritor da chamada nova geração que é sucesso de público e crítica. Além de escrever livros, Raphael também já participou da produção de roteiros para a TV, incluindo a ótima série Supermax (resenhada aqui no blog).

A trama traz uma premissa muito interessante e que me prendeu logo de cara. No prefácio o autor nos diz que a história que vai narrar chegou as suas mãos em circunstâncias inusitadas e que coube a ele traduzir os manuscritos (que estavam em cimério!) e compilá-los. A questão é que Raphael descreve tão bem a maneira como recebeu os manuscritos, de onde vieram e como conseguiu realizar a tradução que você chega a ficar em dúvida se a história aconteceu de fato ou se isso só faz parte da narrativa do autor. Sério,  fiquei tão intrigada que meu lado bibliotecária não aguentou e fui até pesquisar alguns dados no Google para ver se encontrava alguma referência real! Não vou dizer aqui se encontrei algo ou não para não dar spoiler, mas sugiro fazer o mesmo..rs.

“Como um reflexo do mundo, este lugar reunia toda a sorte de pessoas mesquinhas e lamentáveis de que sempre me orgulhei.”

O vilarejo

Créditos da foto: Leia com a gente

 

A história em si é escrita em forma de contos, que podem ser lidos na ordem que se apresentam ou aleatoriamente, mas logo vamos perceber que eles se entrelaçam e culminam em uma conclusão no posfácio.

A trama se passa em um vilarejo isolado no Leste Europeu e os personagens são os seus moradores. Cada capítulo narra a história de um morador e nelas somos apresentados ao que cada um deles tem de pior em si. O mais interessante é que cada conto tem como título o nome de um demônio, que por sua vez representa um dos pecados capitais.

“– Não adianta esperança…fomos esquecidos.

– Esquecidos por quem, meu filho?

– Pelo mundo. Por Deus – reflete o homem.

– Ou talvez tenham sido lembrados pelo diabo.”

Créditos da foto: Leia com a gente

 

O impacto e até o terror que sentimos ao ler essas histórias não são fruto apenas dos fatos narrados, mas principalmente da exposição do lado vil e cruel do ser humano. Somos levados a refletir sobre a seguinte questão: será todos os seres humanos possuem algo de mau dentro de si e o que diferencia uma pessoa boa de uma má é o simples fato de que a boa consegue domar esse mal, já a má deixa que o mal a domine.

“O mal já estava lá. Eu apenas o potencializei. (…) Humanos vivem carregados de uma crueldade sufocada.”  

A narrativa é ágil e prende o leitor. A linguagem é fácil, mas nem por isso rasa, muito pelo contrário. As tramas de cada personagem vão se completando até culminar no capítulo final, onde tudo é é amarrado de forma magistral.

 

“O pecado nos mata Anatole. Não importa quanto tempo seja preciso. O pecado nos mata.”

As ilustrações

Créditos da foto: Leia com a gente

 

A edição da Suma de Letras merece um tópico à parte, pois está simplesmente maravilhosa. O livro é todo ilustrado com belas (ou não..rs) imagens que fazem toda a diferença na composição do livro, pois representam perfeitamente os fatos que vão sendo narrados. No posfácio temos uma ilustração final que é essencial para o entendimento da trama. O ilustrador é Marcelo Damm e merece parabéns pelo belo trabalho. 

Posso dizer que virei fã do autor e pretendo ler seus outros livros. Na minha opinião, Raphael Montes é um dos grandes nomes da literatura nacional contemporânea. Eu e a Gislaine tivemos a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente em uma sessão de autógrafos na Bienal do Livro Rio de 2017 e ele é muito simpático! Leiam “O Vilarejo”, aposto que será uma experiência única!

 

Créditos da foto: Leia com a gente

Até a próxima bibliófilos! E continuem lendo com a gente!