“Como você poderia medir um sentimento por alguém se não tem lembranças sobre ele?”

 

O que seria de nós sem as nossas lembranças? O esquecimento do passado afetaria nosso comportamento no presente? Nossos sentimentos permaneceriam os mesmos se nós simplesmente esquecêssemos todas as coisas, tanto as boas como as ruins, que nos aconteceram?

Essas perguntas me acompanharam durante toda a leitura de O gigante enterrado e é justamente essa reflexão que o autor nos convida a fazer através de sua obra. Kazuo Ishiguro – que acabou de ganhar o Nobel de Literatura 2017 – nos transporta a uma Grã-Bretanha medieval marcada por guerras entre bretões e saxões e povoada por cavaleiros remanescentes da época do rei Arthur, guerreiros valentes, ogros agressivos e uma dragoa que aterroriza a população.

Somado a tudo isso temos ainda uma maldição antiga, sob a forma de uma névoa, que provoca o esquecimento do passado em todos os habitantes do lugar. As pessoas esquecem coisas que acabaram de acontecer e tampouco lembram-se de seus passados. É como se todos vivessem apenas no presente, com poucas lembranças, que vez ou outra passam como flashes em suas mentes, para logo serem esquecidas.

“Mas a senhora tem mesmo certeza de que deseja ficar livre dessa névoa, boa senhora? Será que não é melhor que algumas coisas permaneçam encobertas?”

 

O gigante enterrado

Créditos da foto: Leia com a gente

 

Nesse contexto, a  trama conta a história de Axl e Beatrice, um casal de idosos que vive numa aldeia isolada, levando a vida como todos os outros, mas que um dia decide sair em busca do filho, apesar de não se lembrarem do que aconteceu com ele ou exatamente onde ele se encontra. O tempo todo somos conduzidos pela história sob a ótica desses personagens, que  sem lembranças do passado,  leva o leitor a percorrer o mesmo túnel de esquecimento.

Durante sua jornada eles encontram algumas pessoas, como o guerreiro Winstan, o cavaleiro Gawain e o menino Edwin , cada um com sua missão, mas todas de certo modo relacionadas à estranha névoa e a dragoa Querig. Vamos descobrindo também fatos sobre a vida desses personagens, que de certa forma estão ligados uns aos outros, mas por causa da névoa do esquecimento não se recordam.

A relação entre Axl e Beatrice é encantadora, eles tem um amor muito forte, compartilhado por uma vida inteira, mas passam a viver um dilema: se a névoa for destruída e todos recordarem o passado, o amor deles resistiria às lembranças? E se algo de muito ruim tiver acontecido no passado, como isso afetaria a união deles?

“Podemos fazer todas essas lembranças voltarem. Além disso o sentimento que tenho por você no meu coração vai continuar lá de qualquer forma, não importa o que eu lembre ou esqueça.”

O gigante enterrado é um livro encantador, mas um tanto melancólico, não é uma leitura para se distrair ou passar o tempo, é uma leitura para inquietar, para fazer refletir.

O estilo da narrativa de Ishiguro é um capítulo à parte, é sutil, elegante e profundo, o autor deixa  o enredo aberto à interpretações e faz uso de alegorias por toda a obra, mas podemos perceber isso mais claramente na parte final do livro, que termina de maneira poética e reflexiva. Inclusive, o título da obra não é explicado no decorrer da história, e seu significado fica nas entrelinhas, talvez para que o leitor chegue a sua própria conclusão.

Por fim, O gigante enterrado é um tipo de leitura mais madura, que exige reflexão e interpretação e talvez não agrade a todos, mas vale a pena conhecer a obra, pois é o tipo de livro que acrescenta algo a bagagem de quem o lê.

Até a próxima Bibliófilos ! E leia com a gente !

 

O gigante enterrado

Créditos da foto: Leia com a gente

 

Título: O Gigante Enterrado
Autora: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2015
Gênero: Fantasia
Páginas: 280