“O orgulho é um defeito muito comum. Por tudo que já li, tenho certeza de que é muitíssimo comum mesmo; a natureza humana tem uma inclinação especial para esse defeito.” (p.30)

 

Ao terminar a leitura de Orgulho e Preconceito só me vinha uma pergunta a mente: porque eu nunca tinha lido Jane Austen? Eu tenho a coleção completa publicada pela Martin Claret, mas sempre acabava postergando por um motivo ou outro, até que um belo dia, olhei para Orgulho e Preconceito, ele olhou de volta para mim e pronto, lá estava eu devorando os capítulos! Portanto se você ainda não leu este livro, por favor leia, você, que gosta de ler, não pode deixar de ter essa experiência.

Falar de Orgulho e Preconceito é ao mesmo tempo fácil e difícil. Fácil porque é um livro encantador e delicioso de ler e difícil por ser uma obra de imensa importância, e portanto qualquer resenha parece nunca estar à altura, mas vamos lá, prometo tentar honrar a escrita maravilhosa de Jane Austen.

A famosa história de amor entre Elizabeth Bennet e Mr. Darcy foi publicada em 1813 e tem como pano de fundo a vida e os costumes da sociedade inglesa no final do século XVIII. A heroína idealizada por Jane Austen é, até hoje, uma das protagonistas femininas com mais representatividade da literatura mundial.

Elizabeth é a segunda de cinco filhas do Sr. e Sra Bennet, um casal que não tem grandes posses e leva uma vida ao estilo classe média da época. Lizzie, como é chamada pelos mais próximos, não é nem a irmã mais bonita nem a mais feia, nem a mais culta nem a mais ignorante, nem a mais ingênua nem a mais maliciosa. Pode-se dizer que ela estava na média, mas EliZabeth tem algumas características que a fazem muito especial: inteligência, o senso crítico aguçado, autoconfiança e uma pitada de ironia irresistível. Esses traços da personalidade de Lizzie fazem com que ela seja considerada uma espécie de precursora do feminismo e uma mulher à frente de seu tempo.

Créditos da foto: Leia com a gente

 

A trama começa com uma notícia que agita o vilarejo de Meryton, na província de Hertfordshire, Inglaterra. A mansão de Netherfield Park é alugada para um jovem rico e solteiro, que irá passar uma temporada na região. A presença de um potencial bom partido agita as donzelas e suas respectivas mães pois é uma grande oportunidade de conseguir um bom casamento. O homem é Sr. Bingley, que vem acompanhado das irmãs e do melhor amigo, o rico, misterioso e arrogante Sr. Darcy.

O caminho de Elizabeth e Darcy se cruzam pela primeira vez em um baile promovido em Netherfield e a partir de então um sentimento de antipatia surge entre os dois. Sr. Darcy é a representação da arrogância, um homem ríspido e que não faz o menor esforço para ser agradável. Elizabeth é uma jovem bem-humorada, mas ao se considerar destratada por Mr. Darcy direciona a ele toda a sua ironia e desprezo. Com o passar do tempo o sentimento de desagrado mútuo que sentem um pelo outro vai sofrendo algumas mudanças, desencadeadas tanto por alguns acontecimentos quanto pela convivência.

Impressões

Créditos da foto: Leia com a gente

 

O papel da mulher na sociedade inglesa do século XIX

O tema da narrativa é a história de amor de Elizabeth e Darcy, mas ao contá-la, Jane Austen nos apresenta um retrato do papel reservado à mulher no contexto da sociedade inglesa entre o final do século XVIII e início do XIX. As mulheres tinham no casamento a única possibilidade de ascensão social. Mais ainda, a mulher dependia do casamento, tanto para o status social como para a sua própria sobrevivência. O casamento era um negócio no qual o amor não estava incluído. O fato de o pai das irmãs Bennet não ter grandes posses e só ter filhas mulheres as deixam em posição de desvantagem na obtenção de um bom dote, por esse motivo a mãe das moças é tão obcecada em casar bem suas filhas. Me chamou muito a atenção o fato das filhas não terem direito a herdar a propriedade do pai quando este viesse a falecer. A herança seria passada ao descendente masculino mais próximo, no caso delas, um primo distante. Ou seja, se não se casassem, dependeriam dos favores de um primo quase desconhecido.

Uma heroína à frente do seu tempo

A protagonista de Jane Austen tem convicções e pensamentos mal vistos para sua época. Ela é irônica e tem sempre uma resposta para tudo na ponta da língua. Lizzie é autoconfiante e não se furta a tomar iniciativas e dar sua opinião sobre assuntos diversos. Essas características são alvo de críticas tanto por parte dos habitantes do condado no qual vive como também das irmãs do Sr. Bingley. Mas é justamente a personalidade de Elizabeth que desperta o interesse do Sr. Darcy e o faz passar por cima de todo seu orgulho na tentativa de conquistá-la.  

Os sentimentos acima das convenções sociais

“É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro e muito rico precisa de uma esposa”

Mr. Darcy é um homem muito rico e convicto de sua superioridade social. Sua seriedade é resultado não só da posição social que possui, mas também de uma grande timidez, que durante boa parte do livro é interpretada como arrogância. Ao contrário da frase acima, que abre o livro, ele não precisa de uma esposa e só passa a desejar uma a partir do momento que se apaixona. Mr. Darcy se vê obrigado a rever suas convicções, até então tão sólidas, para aceitar que o que sente por Elizabeth é amor e que esse sentimento é muito mais forte que seu orgulho. Já Elizabeth reage a personalidade de Mr. Darcy com palavras ásperas e um preconceito que muitas vezes não lhe permite interpretar corretamente os fatos. Elizabeth também terá de deixar seu preconceito de lado para permitir a aproximação de Darcy.

Elizabeth Bennet e o feminismo

Há sim um viés feminista na obra de Jane Austen. Nada muito explícito, mas há ali uma tentativa de quebrar certos padrões da época, como a defesa da educação e maior independência para as mulheres. Podemos perceber também um tom de crítica na maneira como as herdeiras mulheres são tratadas e na obrigação do casamento como forma de status social e sobrevivência. Jane Austen dialoga com o feminismo, mesmo que em sua época ainda não existisse o termo.

Uma história de amor compatível com o mundo real

A literatura está repleta de histórias de amor que repetem a mesma fórmula: o casal de protagonistas perfeitos se apaixonam à primeira vista e luta durante toda a história contra adversidades e sofrimentos até encontrar seu final feliz. Todo mundo gosta de histórias assim, mas sempre ficamos com aquela sensação de distanciamento, afinal, na vida real as coisas não acontecem de modo tão perfeito assim, não é? Em Orgulho e Preconceito, Jane Austen nos apresenta um casal de protagonistas tão próximos da realidade que quase conseguimos tocá-los. Eles tem defeitos, comentem muitos erros e são, por vezes, injustos um com o outro. Qualquer semelhança com os casais da vida real não é mera coincidência. Essa proximidade com a realidade desperta empatia no leitor, tornando a história tão apaixonante.

 

Por fim, Orgulho e Preconceito é um livro que merece ser lido, não só pela ótima história, ou pela incrível escrita de Jane Austen. Ele merece ser lido pela mensagem que passa ao leitor: julgamentos baseados em primeiras impressões são, muitas vezes, equivocados. Toda história tem dois lados, e a história de Elizabeth e Mr. Darcy nos mostra isso.

 

Citações

Trechos e citações de Orgulho e Preconceito são muito famosas e estão por toda a parte. Escolhi algumas das minhas prediletas para esse post, espero que gostem!

 

 

 

“Era o mais orgulhoso e desagradável homem do mundo, e todos esperavam que nunca mais aparecesse por ali.” (p. 19)

“Vaidade e orgulho são coisas diferentes, embora sejam palavras usadas muitas vezes como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho está mais ligado à opinião que temos de nós mesmos; e a vaidade, ao que os outros pensam de nós. (p.30)

“Se a mulher esconder o seu afeto do seu objeto com muita habilidade, pode perder a oportunidade de cativá-lo.” (p.32)

“Nada é mais enganador – disse Darcy – do que a aparência de humildade. Muitas vezes não passa de indiferença pelas opiniões ou de uma forma indireta de se gabar.” (p.65)

“Como é adorável passar a tarde assim! Garanto que não há nada mais divertido que ler! Tudo cansa, menos um livro! Quando tiver a minha própria casa, não serei feliz até ter uma excelente biblioteca!” (p.74)

“Sim, a vaidade é sem dúvida uma fraqueza. Mas o orgulho… Onde houver uma autêntica superioridade mental, o orgulho sempre terá seus direitos.” (p.77)

“Creio que há, em cada personalidade uma tendência a algum mal particular… Um defeito natural , que nem a melhor educação pode superar.” (p.78)

“A resignação aos males inevitáveis é o cruel dever de todos nós.” (p.148)

“Não vou intimidar-me[…]. Sou muito teimosa e não deixo alarmar pelos outros. Minha coragem sempre se aguça ante qualquer tentativa de intimidação.” (p.222)

“Tentei lutar, mas em vão. Não consigo mais. Não posso reprimir meus sentimentos. Você tem de me permitir dizer com quanto ardor eu admiro e amo você.” (p.240)

“Desejava e temia que o dono da casa estivesse entre eles e não conseguia decidir entre o orgulho e o temor.” (p.328)

“As pessoas irritadas, porém, nem sempre são prudentes.” (p.376)

“Começou a desejar a estima dele, quando já não podia ter esperanças de conquistá-la.” (p. 377)

“Vou então renunciar a toda esperança, a todo desejo de sua constância. Se ele se satisfizer somente com ter saudades de mim, quando poderia ter o meu amor e minha mão, logo deixarei completamente de sentir saudades dele.” (p. 434)

“Tenho sido egoísta por toda a vida, na prática, embora não por princípio.” (p.444)

“Não sei determinar a hora, o lugar ou o olhar, ou as palavras que lançaram o fundamento. Faz muito tempo. Já estava no meio quando percebi que havia começado.” (p. 459)

Até a próxima bibliófilos! E continuem lendo com a gente.