“O fenômeno que ficou conhecido como Primeiro Dia, obrigou os últimos representantes da raça humana a se adaptarem e repensarem o modo de vida, para que pudessem sobreviver diante de uma nova realidade. Diferente do que muitos acreditavam, não foi o fim dos tempos, mas o início de uma nova e perturbadora era. Uma época vil, feia, visceral e brutal.”

 

O apocalipse é um tema recorrente na literatura e no cinema. A ideia de que nosso mundo caminha para um inevitável fim está presente no nosso imaginário desde tempos muito remotos. Cataclismos cósmicos, mudanças climáticas severas, guerras nucleares e pandemias são alguns dos motivos que poderiam levar o planeta Terra a um colapso e consequentemente a raça humana a extinção. Planeta Brutal, do autor Raphael Miguel, tem como premissa o apocalipse. Mas a trama não está focada no fim do mundo ou em explicar os motivos que levaram a isso. Planeta Brutal fala do que acontece depois e de como o ser humano reagiria ao fim do nosso planeta como o conhecemos.

 

A trama se passa no Brasil e começa narrando um dia comum, com pessoas vivendo suas rotinas normalmente quando ocorre um evento catastrófico e de modo abrupto aniquila o planeta Terra e a maior parte da raça humana. A partir daí os sobreviventes precisarão aprender a viver num novo planeta, hostil e brutal. É possível sentir, através da narrativa de uma das personagens que presenciou o acontecimento, toda a perplexidade e angústia diante do que parecia ser o fim de tudo. É de arrepiar.

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

 

“O Primeiro Dia foi o apocalipse, a danação final da humanidade. Poucos sobreviveram e, estes, foram obrigados a repensarem a sua existência na Terra. Retrocedemos. Anos de avanços científicos e tecnológicos foram dissipados naquela tragédia. Perdemos nossa essência, nossa identidade, nossa fé.”

 

Após o evento – que foi chamado pelos sobreviventes de Primeiro Dia – começam a surgir novas leis e costumes, fazendo com que os humanos que restaram tivessem que lutar diariamente pela sobrevivência. O perigo não é apenas a nova atmosfera do planeta – que se tornou desértico – mas o próprio ser humano, que regrediu a um estado de barbárie. Poucos, muito poucos, ainda conservam alguma humanidade em si.

 

As mudanças no clima também causaram mutações em alguns seres conferindo-lhes um aspecto físico singular e também uma vantagem física sobre a raça humana tradicional. Os aquáticos e os arenosos são uma constante ameaça a sobrevivência humana no planeta. Os sobreviventes procuram se agrupar em clãs de modo a se protegerem, mas existem aqueles que preferem se reunir em bandos e promover o caos e a destruição por onde passam.

 

“Incutiam o terror e a danação por todos os lados, salgavam e amaldiçoavam a terra, até não restar mais nada do lugar por onde passavam.”

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

Acompanhamos a saga de Kaiara, uma sobrevivente dos eventos do Primeiro Dia, que agora tem um filho e luta dia a dia pela sobrevivência de ambos. Kaiara é uma mulher forte e lutadora, mas carrega muitas marcas e feridas na alma, causadas por tudo de ruim que lhe aconteceu desde o dia em que o mundo acabou. Sob outra óptica conhecemos Judah, um arenoso que tem algo em comum com Kaiara: ambos lutam apenas para sobreviver. Em determinado momento da trama seus caminhos se cruzam e embora cada um lute apenas por si mesmo precisarão formar uma aliança contra inimigos mais fortes. Judah é o tipo de personagem que amamos odiar!

 

“Na verdade, creio que esta sempre seja a sina da humanidade: caminhar sem parar, sem um rumo certo. A vida se repete incessantemente, um destino cíclico, entediante e sem graça. Corremos na angústia de fugir de nossos problemas, tentando afugentar nossos demônios, ignorar o sofrimento. Corremos para continuar vivos.”

 

A trama de Planeta Brutal é repleta de lutas e sequências de ação que tiram o fôlego. O autor não tem medo de promover cenas brutais e que vão te chocar. Portanto,  não se apegue demais aos personagens, pois tudo pode acontecer. O desenrolar da parte final do livro é eletrizante e quando você pensa que a trama acabou o autor nos surpreende com um final alternativo, um recurso literário ousado, mas que dá muito certo com Planeta Brutal. Ao final, você pode escolher o fim que mais gostou, sem deixar de refletir sobre o que poderia ter acontecido caso algumas coisas ocorressem de maneira diferente.

 

“Se a humanidade prestasse mais atenção à própria destruição, poderia parar a tempo e rogar por um melhor destino.”

 

Como toda boa distopia, Planeta Brutal nos leva a refletir sobre questões como aquecimento global e até onde as pessoas conseguem manter sua humanidade e seus valores morais ao serem expostos a circunstâncias extremas. É possível manter nosso código moral e de conduta ou vale tudo para sobreviver? Leia o livro e tente responder a si mesmo essa questão. A resposta não é tão simples quanto pode parecer.

As Ilustrações

Planeta Brutal possui ilustrações ótimas permeando todo o livro. O ilustrador Rafael Danesin captou muito bem o espírito dos personagens, e o resultado proporciona ao leitor um complemento excelente a leitura.

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

Bônus: Playlist

Raphael Miguel é um autor que tem ótimas sacadas, sempre insere algum elemento diferente e inusitado as suas tramas. Dessa vez ele criou uma playlist para Planeta Brutal e o resultado foi fantástico. A lista de músicas é recheada de puro rock. Temos desde levadas mais clássicas até o hardcore mais pesado. Sei que sou suspeita para falar, porque curto um bom rock, mas a playlist que o autor montou representa muito bem a trama do livro. É Planeta Brutal na veia! Confira a playlist, vale muito a pena:

 

 

Título: Planeta Brutal

Autor: Raphael Miguel

Editora: Coerência

Páginas: 301

Gênero: Distopia