Olá Bibliófilos !

 

Minha primeira leitura de Neil Gaiman foi Lugar Nenhum, já resenhada aqui no blog, e desde então eu me apaixonei pelo autor. Gaiman transita muito bem por diferentes gêneros como quadrinhos, fantasia e histórias mais sombrias, mas seus textos tem sempre aquele toque mágico inconfundível.

 

Em O Oceano no Fim do Caminho o autor toca em um tema caro a todos nós: a infância e em como nessa fase da vida a fantasia e a realidade estão sempre interligadas.

 

“As memórias de infância às vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois, como brinquedos antigos esquecidos no fundo do armário abarrotado de um adulto, mas nunca se perdem por completo”. (pág. 14)

 

A história começa de trás para a frente quando nosso protagonista – cujo nome não é mencionado em nenhum momento do livro –  já é um homem de meia-idade e retorna para Sussex (Inglaterra), sua cidade natal, para um velório. Andando sem rumo pelos arredores de onde passou sua infância,  acaba indo parar na entrada da Fazenda Hempstock, ao final da rua onde morava. Sem saber exatamente o que procura ele desce do carro e é recebido pela Sra Hempstock, mãe da garota que foi sua única amiga na infância: Lettie.

 

A partir desse momento ele mergulha num turbilhão de lembranças que considerava já esquecidas e ao sentar-se a beira do lago nos fundos da fazenda sua memória o leva a época em que ele tinha apenas 7 anos e acreditava que aquele lago, na verdade, era um oceano.

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

A narrativa nos leva ao universo do protagonista – um garotinho introspectivo e solitário – que vivia mergulhado nos livros que para ele eram uma espécie de válvula de escape da realidade. Nos livros ele vivia aventuras, conhecia lugares diferentes e se tornava outra pessoa. Os livros eram seus únicos amigos. Até que um dia um acontecimento inesperado faz com que ele conheça Lettie Hanpstock, uma garota um pouco mais velha, de 11 anos, que iria mudar sua vida.

 

“Fui para outro lugar em minha cabeça, para dentro de um livro. Era para onde eu ia sempre que a vida real ficava muito difícil ou muito inflexível”. (pág. 72)

 

Lettie vivia com sua mãe e avô na fazenda Hempstock, um lugar misterioso onde coisas inacreditáveis aconteciam. O garoto logo vê na destemida Lettie uma amiga capaz de compreendê-lo e lhe dar proteção. Ele sabe que Lettie e sua família tem algo de extraordinário que ele não é capaz de compreender, mas ele não se importa com isso pois se sente acolhido como nunca se sentiu em sua vida.

 

A partir desse momento alguns acontecimentos levam o garoto a acreditar que ele e sua família estão correndo um grande perigo. Sua mãe contrata uma governanta para cuidar dele e de sua irmã enquanto ela e seu pai estão no trabalho. A governanta é Ursula Monkton, uma jovem muito bonita e pela qual todos ficam logo encantados, mas nosso protagonista acredita ter bons motivos para crer que por trás da bela aparência da governanta na verdade se esconde um ser maligno capaz de coisas terríveis.

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

A história construída por Gaiman é um mergulho no universo lúdico das crianças, onde fantasia e realidade estão separados por uma linha muito tênue. Ao longo da história sempre fica a dúvida se os acontecimentos narrados foram reais ou fruto da imaginação do garoto, como uma forma de reagir aos acontecimentos difíceis pelos quais estava passando. Mais uma vez Gaiman mostra que é mesmo mestre na arte de criar histórias fantásticas com um toque de realidade… ou seria o contrário? Histórias reais com um toque de fantasia… Neil Gaiman deixa o leitor livre para tirar suas próprias conclusões.

 

Recomendo que você leia O Oceano no Fim do Caminho com a mente de uma criança, sem as amarras e as limitações que a mente adulta às vezes nos impõe.

 

E então, gostou da resenha? Já leu o livro? Conta para a gente!

 

Até a próxima, e continuem lendo com a gente!

 

Frases Marcantes___________________________________

 

“Eu já estivera ali, não estivera, muito tempo atrás? Tinha certeza que sim. As memórias de infância às vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois.” (pag. 14)

 

“Livros eram mais confiáveis que pessoas, de qualquer forma.” (pag. 18)

 

“Eu não era uma criança feliz, ainda que, de vez em quando, ficasse contente. Vivia nos livros mais que em qualquer outro lugar.” (pag. 22)

 

“Eu me sentia como se aquilo me examinasse, me desconstruísse. Como se soubesse tudo a meu respeito — coisas que nem eu sabia sobre mim mesmo.” (pag. 55)

 

“Esse é o problema com as coisas vivas. Não duram muito.” (pag.58)

 

“Crianças pequenas acham que são deuses, ou pelo menos algumas acreditam nisso e só ficam satisfeitas quando o resto do mundo concorda com seu jeito de ver as coisas.”(pag. 64)

 

“De repente o futuro passou a ser um mistério: tudo podia acontecer. O trem da minha vida descarrilou, saiu dos trilhos e cruzou os campos, e agora seguia pela estrada comigo.”(pag. 95)

 

“Ursula Monkton sorriu, e os raios se espiralaram e serpentearam atrás dela. Ela era a verdadeira encarnação do poder, parada no ar crepitante. Era a tempestade, o raio, o mundo adulto com toda a sua força, todos os seus segredos e toda a sua crueldade casual e insensata. Ela piscou para mim.”(pag. 102)

 

“Ninguém realmente se parece por fora com o que é de fato por dentro. Nem você. Nem eu. As pessoas são muito mais complicadas que isso. É assim com todo mundo.”(pag. 129)

 

“Naquele momento tive certeza de que iria morrer. Eu não queria morrer. Meus pais me disseram que eu não morreria de verdade, não o meu eu real: que ninguém que morre morre de verdade, que meu gatinho e o minerador de opala tinham apenas adquirido um novo corpo e logo, logo voltariam a viver. Eu não sabia se isso era assim mesmo ou não. Só sabia que estava acostumado a ser eu, e que gostava dos meus livros e dos meus avós e da Lettie Hempstock, e que a morte ia tirar todas essas coisas de mim.”(pag. 144)

 

 

Título: O Oceano no Fim do Caminho
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Ano: 2013
Gênero: Fantasia
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