“A bondade vem de dentro. A bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.”

 

Mergulhar no universo de Laranja Mecânica é uma experiência única, pois vários sentimentos se misturam: choque, raiva, pena e compaixão vão se alternando ao longo da história. É sim uma história violenta, que choca em vários momentos, mas é também uma história sobre o conceito de humanidade, sobre até onde o ser humano é capaz de ir e qual o papel que a sociedade tem sobre seu comportamento.

 

Laranja Mecânica é uma das obras mais famosas, analisadas e comentadas de todos os tempos. É também atemporal, tal a contemporaneidade dos temas tratados. A sensação de que os fatos narrados estão muito próximos da nossa realidade é constante e incomoda.

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

O livro foi escrito pelo britânico  Anthony Burgess (1917-1993) no ano de 1962. É um dos mais famosos romances distópicos da literatura mundial, marcando presença constante nas diversas listas de melhores livros já escritos. O manuscrito original do livro se encontra na Universidade McMaster em Hamilton, Ontario, Canadá.

 

Burges se inspirou em um acontecimento real para escrever o livro. Em 1944 sua primeira esposa – Lynne – foi estuprada por soldados americanos. Essa experiência foi um grande trauma para sua família. No livro há uma passagem crucial e chocante, que faz alusão a esse fato.

 

“Para mim, não foi prazer nenhum narrar atos de violência ao escrever o romance. Mergulhei em excessos, em caricaturas, até em um dialeto inventado, com o propósito de fazer a violência ser mais simbólica do que realista. (…) Leitores do meu livro talvez se lembrem de que o autor cuja esposa foi estuprada é o autor de uma obra chamada Laranja Mecânica. (A. Burgess, 1972).

 

Outra peculiaridade da obra é a escrita. Burgess criou um vocabulário próprio, chamado  Nadsat – que mistura palavras em inglês, russo e gírias do subúrbio de Londres – para esse universo, o que causa, a princípio,  uma sensação de desorientação no leitor, pois nos deparamos com palavras inventadas. No final do livro há um glossário que ajuda bastante, mas conforme avançamos na leitura começamos a ser capazes de deduzir o que essas palavras inventadas querem dizer. É uma experiência única e fascinante.

 

“Dei um tapa horrorshow no oko do vek sentado ao meu lado“

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

A história é narrada pelo jovem Alex, o líder de uma gangue extremamente violenta. Alex e seus amigos – Georgie, Pete e Tosko – cometem crimes e ações violentas por diversão. São cruéis e desprovidos de qualquer sentimento de remorso, ao contrário, sentem até um certo orgulho de suas façanhas. A história se divide basicamente em três partes:

 

Parte 1: o universo de Alex

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

Nesta primeira parte do livro somos apresentados a Alex e sua gangue. O protagonista nos conta, em primeira pessoa, como é sua rotina, os crimes que comete e o que se passa em sua cabeça. Os pensamentos de Alex nos mostram como funciona seu raciocínio e sua percepção do mundo. É chocante.

 

“O dia era muito diferente da noite. A noite pertencia a mim e aos meus amigos e a todo o resto dos jovens, e os burgueses velhos espreitavam dentro de suas casas, bebendo das transmissões mundiais idiotas, mas o dia era dos velhos e sempre parecia ter mais policiais durante o dia também.”

 

Parte 2: a prisão e o “tratamento”

 

Fonte: Pinterest

 

Na segunda parte da trama acompanhamos a prisão de Alex, após cometer um crime grave e ser deixado para trás por seus colegas de gangue. Na prisão, Alex – por possuir um perfil violento – é selecionado para se submeter a um novo “tratamento” – o Método Ludovico – que tem por objetivo curá-lo da violência, tornando quem se submete a ele incapaz de praticar qualquer tipo de ato violento.

 

O método consiste no condicionamento psicológico, através da associação de imagens a uma sensação dolorosa. Sob a promessa de ser libertado após o término da experiência Alex aceita sem ter a menor ideia do que se trata. A descrição do tratamento, do método utilizado e das reações de Alex são perturbadoras e aflitivas.

 

“Eventualmente o governo recorre aos mais cruéis e mais violentos membros da sociedade para controlar os demais, em vez de usar ideias novas”.

 

Parte 3 : após a prisão e “reformado”

 

Fonte: Pinterest

 

Terminado o tratamento, Alex é considerado curado e é posto em liberdade. Na parte final do livro encontramos Alex saindo da prisão e sendo reapresentado a sociedade como o primeiro ser humano “reformado”. Ele, definitivamente, não é mais o mesmo. Mas tampouco podemos dizer que o tratamento foi bem sucedido.

 

Alex, após o condicionamento gerado pelo tratamento, trás consigo não apenas a incapacidade de cometer atos violentos, mas também a incapacidade de escolher. Alex perdeu o livre-arbítrio.

 

“Todo ser humano tem direito de escolha. Se uma pessoa não tiver a liberdade de escolher o mal, tampouco terá liberdade de escolher o bem. Não importa se a pessoa opta pelo mal ou pelo bem, o que importa é se ela tem a liberdade ou não de poder escolher.”

 

Apesar de ser uma obra distópica, que se passa num futuro fictício, é inegável sua contemporaneidade, já que a sensação de que o comportamento violento dos jovens daquela sociedade é bem próximo do que vemos nos dias de hoje e nos acompanha por toda a leitura.

 

A questão central levantada por Burgess é o livre arbítrio, o direito de o indivíduo escolher entre o bem e o mal. Poderia um ser humano tornar-se bom por imposição? A bondade é algo que pode ser “aprendida” através de métodos questionáveis e invasivos? A trajetória de Alex nos faz refletir entre o direito ao “eu” e o que é “melhor” para a sociedade. O final do livro responde a essa questão de uma maneira surpreendente e nos faz realmente refletir.

 

“Alguns de nós têm que lutar. Existem grandes tradições de liberdade a defender. Não sou homem de partidos políticos. Onde vejo a infâmia, busco erradicá-la. Os partidos políticos não significam nada. A tradição da liberdade significa tudo. As pessoas comuns deixarão isso passar. Elas venderão a liberdade por uma vida mais tranquila.”

 

Resumindo o livro em uma palavra, podemos dizer que é simplesmente horrorshow !

Leia o livro e você vai entender !

 

Sobre o dialeto Nadsat

 

Fonte: Pinterest

Segundo o próprio Burgess, o dialeto Nadsat é quase como um personagem da obra. Ele é essencial para a contextualização da história. A editora Aleph, responsável pela publicação de uma das mais belas edições de Laranja Mecânica no Brasil, acrescentou o Glossário Nadsat ao final do livro e também o disponibilizou no site da editora. Vale a pena dar uma olhada.

 

“O linguajar, tanto do filme como do livro (…) não é mero enfeite (…). Foi criado para transformar Laranja Mecânica, entre outras coisas, em uma cartilha sobre lavagem cerebral. Ao ler o livro ou assistir ao filme, você se verá, no final, de posse de um mínimo vocabulário russo – sem nenhum esforço, para sua surpresa. É assim que funciona a lavagem cerebral.” (A. Burgess, 1972).

 

Adaptação cinematográfica

 

Laranja Mecânica foi adaptado com maestria para o cinema em 1972 por Stanley Kubrick, e é até hoje um dos filmes mais aclamados da história do cinema. Para assistir com a mente aberta !

 

Veja o trailer:

 

Até a próxima Bibliófilos. Continuem lendo com a gente !

Título: Laranja Mecânica
Autor: Anthony Burgess
Editora: Aleph
Ano: 2014
Gênero: Ficção Científica
Páginas: 224