– Você nunca lê nenhum dos livros que queima?
– Não, isso é contra a lei!
– Aha, é claro. Mas é verdade que antigamente os bombeiros apagavam incêndios em lugar de começá-los?

 

Tente imaginar um mundo em que os livros sejam considerados uma ameaça ao sistema e portanto absolutamente proibidos. Para exterminá-los, basta chamar os bombeiros – profissionais que antes se dedicavam à extinção de incêndios, mas que agora são os responsáveis pela manutenção da ordem, queimando livros e impedindo que o conhecimento se dissemine entre a sociedade como uma praga. Esse é o universo distópico criado pelo escritor norte-americano Ray Bradbury (1920-2012) em uma das mais belas e conhecidas obras de ficção científica.

Fahrenheit 451 foi escrito nos porões de uma biblioteca da Universidade da Califórnia em 1953, no contexto de uma América que após o término da II Guerra Mundial, em 1945, vivia um tanto alienada, entretida por prazeres imediatos e de fácil digestão como a TV, a grande novidade que consumia grande parte do tempo das pessoas e consequentemente aumentava cada vez mais a influência sobre a sociedade. Bradbury era um crítico do fascínio que a TV provocava nas pessoas, e creditava a essa nova mídia a crescente falta de interesse da sociedade americana pelos livros, refletindo esse sentimento em sua obra.

“Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido?”

O título Fahrenheit 451 faz referência à temperatura na qual o papel pega fogo em graus fahrenheit,  e  é dividido em três partes – “A lareira e a salamandra”, “A peneira e a areia” e “O clarão resplandecente” e conta a história de Guy Montag, um bombeiro orgulhoso de sua profissão e até então um cidadão considerado exemplar. Como todos em sua sociedade, não é dado a reflexões e questionamentos, e leva sua vida seguindo a ordem estabelecida pelo governo totalitário e controlador.

Créditos da foto: Leia com a gente

Tudo muda quando Montag conhece a jovem Clarice, que possui um espírito questionador e compartilha com ele suas reflexões. A amizade que nasce entre eles faz com que o bombeiro comece a questionar sua profissão, sua vida e a sociedade na qual vive.

Certo dia, Montag acidentalmente lê um trecho de um livro enquanto realizava uma averiguação em uma casa que acaba de ser denunciada. Ele então se vê tentado a pegar o livro e não queimá-lo. A partir desse momento, Montag passa a ter fascínio pelos livros que deveria queimar e então sua vida muda completamente.

“Então, vê agora por que os livros são tão odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. As pessoas acomodadas só querem rostos de cera, sem poros, sem pelos, sem expressão”

O livro é uma crítica aos governos controladores, que utilizam métodos de alienação para manter a população sob controle. Essa crítica pode ser percebida nas “telas” instaladas em todas as casas, através das quais o governo mantem a sociedade alheia ao pensamento e ao conhecimento. As “telas” criadas pelo autor fazem referência a TV, que sob a óptica de Bradbury, contribuía para tornar a sociedade americana cada vez mais alienada e avessa a atividades mais reflexivas, como a leitura.

A obra de Bradbury é atemporal e nos faz refletir sobre a liberdade de pensamento. A proibição do acesso ao conhecimento – representado aqui pelos livros – resulta em uma sociedade incapaz de pensar, refletir e questionar, portanto, uma sociedade manipulável e facilmente controlável.

E sim, prepare seu coração para sofrer com as cenas que descrevem a queima de livros, são belas e tristes, na mesma proporção. O final da história é incrível e nos deixa a reflexão de que o ser humano sempre saberá como se reinventar, não importa a quais acontecimentos ou circunstâncias seja submetido.

Créditos da foto: Leia com a gente

O livro trás ainda um posfácio escrito pelo próprio autor, com o título de Coda, que merece ser lido e relido, nele Bradbury reflete sobre como, ao seu ver, a sociedade continua queimando livros.

“[…] Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar querosene e acender o pavio. Cada editor estúpido que se considera fonte de toda literatura insossa, como um mingau sem gosto, lustra sua guilhotina e mira na nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro ou escrever mais que uma rima de jardim-de-infância.” (Posfácio)

Por fim, recomendo muito, mas muito mesmo a leitura desse clássico, ao final da história você se dará conta do enorme valor que tem a liberdade, de pensar e de refletir por si mesmo.

Pense nisso! E leia com a gente !

 

Leia o livro, assista ao filme e ouça a música!

Fahrenheit 451 é uma obra tão representativa que além de gerar várias edições do livro, inspirou uma adaptação cinematográfica e até uma música. Confira!

A adaptação cinematográfica de Fahrenheit 451 foi lançado em 1966 e dirigido por François Truffaut. Apesar de algumas diferenças com relação ao livro o filme merece ser visto. Assista ao trailer !

 

A música The sound of silence da dupla Simon & Garfunkel, lançada em 1964, é considerada um símbolo  da contracultura e do sentimento americano após o assassinato de John Kennedy. Paul Simon, autor da letra, declarou ter se inspirado na atmosfera pesada do romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Ouça a música e confira a letra!

 

 

Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Editora: Biblioteca Azul
Gênero: Ficção Científica
Páginas: 215