Se tinha uma coisa da qual Zé se orgulhava era de seus pastéis, com eles ganhava a vida e conseguia manter a família. A rotina como feirante era cansativa, mas Zé e sua esposa Mila nunca foram de fazer corpo mole e madrugavam em uma tradicional feira na metrópole paulista. Seus pastéis eram famosos e vinha gente de todos os cantos só para prová-los. Zé prezava pela qualidade, fritura sequinha e um recheio generoso.

Foi em uma manhã de outono que as coisas começaram a mudar para Zé. Já tinha ouvido rumores de que haveria uma nova banca de pastel na feira, mas não deu muita importância, afinal sua fama já estava consolidada e duvidava que seus clientes trocassem seus pastéis pelos de um desconhecido.

Passadas algumas semanas, Zé notou seu número de clientes diminuir. Foi então que sua esposa chegou com a notícia de que a nova banca de pastel estava lotada. Zé se recusava a acreditar, então decidiu ir ver com seus próprios olhos. Esgueirou-se até a banca de pastel concorrente e ficou chocado com o que viu. Ela não só estava lotada como reconheceu vários de seus clientes entre os que aguardavam na fila.

Aquilo foi como um soco no estômago, não conseguia entender. Observou melhor seus concorrentes e viu que eram uma mulher mais velha e dois rapazes. Analisou também o cartaz com os preços e constatou, chocado, que eram mais caros que os seus. Voltou para sua banca pensando no que o pastel do concorrente poderia ter de especial.

Passaram-se os dias e a freguesia de Zé só diminuía. A situação era desesperadora, portanto pedia medidas desesperadas. O pasteleiro chamou Leandro, seu ajudante no caixa e pediu que ele fosse até a banca da concorrência e lhe trouxesse dois pastéis. Diante do espanto do rapaz ele apenas observou que era preciso conhecer o inimigo se quisesse derrotá-lo.

Assim que recebeu os pastéis Zé rapidamente pôs-se a analisá-los. O tamanho era padrão e a fritura sequinha, mas nada de muito diferente. Foi quando deu a terceira mordida e chegou ao recheio que entendeu, era simplesmente divino. Carne com queijo, um sabor que ele também tinha no seu cardápio mas o da concorrência tinha algo de especial, não conseguia identificar se era o tempero, a textura da carne ou o queijo, mas o conjunto da obra era excelente, tinha que admitir.

Nos dias seguintes, Zé mostrou-se obcecado em descobrir o segredo dos pastéis, sentia o tempero, tentava identificar algum ingrediente diferente, mas não conseguira chegar a nenhuma conclusão, só sabia que eram deliciosos. Mila assistia incrédula ao marido devorar os malditos pastéis que tinham roubado toda a sua freguesia.

Para piorar, uma repórter da TV apareceu na feira para gravar uma matéria com a dona da banca concorrente, que orgulhosa falava do enorme sucesso que seus pastéis estavam fazendo. Quando a repórter perguntou qual era o segredo daquelas delícias, ela olhou com cumplicidade para os dois filhos, deu um sorriso direto para a câmera e declarou que o segredo era uma receita de família que ela guardava a sete chaves.

Certa manhã, Zé notou um frenesi entre os colegas de feira. Estavam agitados e corriam para o bar em frente. Intrigado, seguiu a movimentação e chegou a tempo de ouvir a notícia que vinha da TV. Uma repórter entrevistava um policial que dava detalhes de um caso ocorrido na noite anterior. Uma mulher e dois rapazes haviam sido presos em flagrante após a polícia encontrar uma cena chocante. Na cozinha da casa em que moravam havia sangue espalhado pelo chão e alguns sacos de plástico com restos de membros humanos. No local também havia sido recolhida uma grande quantidade de carne moída e massas de pastéis.

A imagem da TV então mostrou três pessoas algemadas sendo encaminhadas para o camburão. Zé reconheceu-os imediatamente, era a dona da banca concorrente e seus dois filhos. A repórter então se aproximou da mulher, que transtornada repetia frases aparentemente desconexas, mas foi possível ouvi-la repetindo que era só uma receita de família.

As palavras da mulher caíram como uma bomba nos ouvidos de Zé, que nauseado entendeu.

Era essa a receita de família.

Todas as informações e referências citadas neste conto são obra de ficção.