Vitória desde que se entendia por gente, sabia que tinha um problema. Segundo o diagnóstico de um dos médicos pelos quais passou, era portadora da doença chamada “dead colors”. Uma anomalia rara, que fazia com que as informações captadas pela sua retina, não fossem interpretadas corretamente pelo cérebro, fazendo com que ela enxergasse o mundo sem cor, e os seus olhos fossem apenas de um branco fantasmagórico, o que lhe dava uma aparência estranha. 

 

A doença não lhe incomodava, afinal de contas nasceu assim. O que realmente lhe incomodava era a cara de pena com que alguns a olhavam. Os cochichos e zombarias que ouvia nos corredores do colégio. Cabra-cega” era o apelido que mais lhe irritava. Pessoas sabem ser maldosas quando querem.

Detestava as malditas explicações que os professores davam aos alunos, para justificar a sua não participação em determinadas atividades. Fazia com que se sentisse uma besta com chifres. “Bando de idiotas” pensava. Agiam como se fossem superiores, como se não tivessem defeitos, odiava todos eles.

Sempre fora solitária, e com seus 13 anos, tinha aprendido a dominar a raiva e a dor que sentia contra as rejeições e humilhações pelas quais passava. “Não preciso de ninguém” repetia a si mesma, e assim passava todo seu tempo na companhia de livros e grossas enciclopédias sobre medicina, química, entre outras temáticas avançadas, que contrastavam com a sua pouca idade. A verdade é que seu objetivo sempre foi encontrar a cura, não queria ser inferior.  

 

 

Um dia, na saída do colégio, Vitória resolveu se aproximar da aglomeração de gente que cercava o aluno caído ao chão. Não porque estava preocupada com o idiota que tropeçou nos próprios pés, mas porque inacreditavelmente estava vendo a cor daquilo que escorria vigorosamente pelo rosto do garoto. Algo tão lindo e inebriante, que não conseguiu se conter, estendeu a mão e tocou a face tingida de vermelho.  “Sangue” sussurrou. Ao notar a repugnância com que a olhavam, tratou de sair portão a fora e correr o mais distante dali. 

Longe dos olhares críticos, Vitória levantou a mão diante dos olhos, para enfim contemplar aquela cor rubra que a hipnotizara. Mas, grande foi seu espanto, ao notar que não só via o vermelho do sangue, mas que este contrastava com a alvura de sua pele. Lentamente, foi olhando ao seu redor, e como mágica tudo havia ganhado cor. Seu coração batia tão forte, que chegou a pensar que ele fosse explodir tamanho era seu êxtase. Por breves minutos, ela se sentiu viva, e não conteve as lágrimas quando as nuances cinzas inundaram novamente seus olhos. Naquele instante Vitória teve duas certezas. A de que jamais conseguiria viver naquele mundo apático, e a de que seria capaz de qualquer coisa para sair dele.

 

Ela nunca contou a ninguém sobre tal experiência, não queria se tornar um rato de laboratório. Ao invés disso, mergulhou numa busca obsessiva pela “cura”. Fez experimentos horripilantes. E como precisava de sangue fresco, uniu o útil ao agradável, e saboreou cada segundo em que matou todos os que lhe fizeram mal.

 

Nove anos depois, Vitória conseguiu acobertar toda a propriedade genética do sangue, sem que a essência fosse perdida. Inventou uma fórmula que a permitia criar diversos produtos de beleza a base de sangue, como seus hidratantes corporais, que além de resolverem o seu problema, ajudava no rejuvenescimento da pele deixando-a mais sedosa. Esperta, viu ali sua oportunidade de negócio.

Foi assim que nasceu a Vitória’s Secret, uma das marcas mais famosas do mundo, e com faturamento de bilhões de dólares. Vitória é sinônimo de poder e beleza para a sociedade. Uma mulher de sucesso e admiração, que não cansa de devotar a sua “cura”, a um milagre divino. Mas o que ninguém imagina, é que atrás do lindo sorriso, sempre delineado de vermelho, esconde a verdadeira face da morte.

 

***Todas as informações contidas neste conto trata-se de uma ficção***