“Como a noite, ela caminha em beleza,
De tempo aberto e céu estrelado.”
— Lord Byron

Ao adentrar a casa teve certeza que era perfeita. Luz natural, arejada e o mais importante: a vista para o mar. Pedro adorava o mar e aquela praia quase deserta no sul da Bahia lhe daria o que mais precisava naquele momento: inspiração.

Já fazia dois anos desde o lançamento de seu último livro, o quarto de uma sequência de sucessos, e desde então não conseguia mais escrever, estava com um bloqueio criativo pelo qual nunca havia passado. Seu editor já estava pressionando-o, sentia-se sufocado e precisava voltar a ser o bom e velho Pedro Monestel, escritor best-seller. A esposa e os gêmeos tiveram que aceitar que ele precisava desse refúgio, longe de tudo e de todos.

Foi então que reparou no quadro pendurado na parede do quarto. Tinha cores fortes e retratava uma bela mulher, de longos cabelos negros, pele bronzeada e olhos amendoados. Vinha caminhando em direção a praia, saindo do mar.

Pedro observava a pintura hipnotizado. A mulher parecia olhar dentro dos seus olhos. Depois de algum tempo despertou daquele estado de torpor e foi preparar uma refeição rápida, adormecendo logo em seguida devido ao cansaço da viagem.

O relógio marcava 00:15 quando Pedro foi acordado por uma música. O som era envolvente, num ritmo dançante que lembrava uma mistura de instrumentos de percussão.

Intrigado seguiu até a sala, abriu a porta da varanda e deparou-se com uma mulher que dançava ao som da música. O coração de Pedro batia tão forte que parecia querer sair pela boca.Tentava entender de onde vinha a música que continuava tocando e o que a mulher fazia lá.

Então ela virou-se e Pedro sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao perceber que a mulher se parecia muito com a da pintura do quadro em seu quarto. Ela olhou para ele e sorriu, sedutora. Pedro parou de tentar refletir sobre o que via e apenas caminhou em direção a mulher, que segurando suas mãos puxou-o para dançar. Pedro não conseguia mais pensar em nada, apenas seguia o ritmo da dança, hipnotizado pela mulher.

 

Na manhã seguinte Pedro acordou assustado sem se recordar de como havia voltado para cama. Olhou para o quadro e a mulher misteriosa estava lá, encarando-o. Aflito, tentou convencer-se de que tudo não havia passado de um sonho. Caminhou até a sala e viu seu notebook ligado, mas não tinha mexido nele desde que chegara. Aproximou-se e viu que havia um texto digitado. Leu página após página e, aterrorizado, constatou que era um livro inteiramente pronto. Ao final via-se a assinatura do autor: Pedro Monestel.

O escritor permaneceu mais algumas semanas na casa, e noite após noite ia até a varanda na esperança de que a mulher misteriosa aparecesse novamente, mas ela nunca retornou.

Numa manhã Pedro partiu, levando consigo o texto misterioso assinado por ele. Sua viagem foi interrompida numa curva da estrada quando seu carro, desgovernado, atingiu em cheio um caminhão.

O último livro de Pedro Monestel foi publicado postumamente um ano após sua morte. Fez um enorme sucesso. A história sobre um escritor que se vê obcecado por uma mulher aprisionada em um quadro ficou semanas na lista dos mais vendidos e agora seu antigo editor negocia uma adaptação da história para o cinema. O nome do filme será “O Quadro”.

Todas as informações e referências citadas neste conto são obra de ficção.