“Na política não há amigos, apenas conspiradores que se unem.”
― Victor Lasky

 

 

– E na quarta-feira reuniremos a base aliada para selar esse acordo. Claro, claro, eu ligo para vossa excelência assim que tiver notícias. Um abraço. – põe o telefone no gancho.

 

– Deputado Antunes, preciso falar com o sr., é urgente!

 

– Mas o que é isso Jorge, ficou maluco, entrando assim sem se anunciar? E se eu estivesse tratando de algum assunto sigiloso!

 

– Deputado, perdoe-me, mas é muito urgente.

 

– O que foi agora? Mais um ministro caiu? Quem foi preso dessa vez?

 

– O senhor foi citado na delação premiada da Carvalho & Costa.

 

– O quê?

 

– Acabou de vazar na mídia, já está em todos os sites e canais de TV.

 

– Não, não, não….. não pode ser. Justo agora que consegui angariar votos suficientes para me eleger presidente da câmara – dá um soco na mesa. Quem foi o linguarudo desgraçado?

 

– O Milton Costa.

 

– Bandido! Traidor! Ele era meu amigo, meu amigo! Como pode me entregar de bandeja assim?

 

– Não sei nem o que dizer deputado, imagino sua decepção.

 

– Agora tenho que ser racional Jorge, ele tem que apresentar provas. Eu sou muito cuidadoso, não deixo rastros. Sou um profissional e não um desses amadores que são pegos em grampos telefônicos. O que ele tem de concreto contra mim?

 

– Seu nome foi encontrado nas planilhas de pagamento de caixa 2.

 

– Planilhas? Aquelas planilhas com apelidos ridículos?

 

– Isso mesmo deputado.

 

– Mas então… me deram um apelido? Mas que audácia do Milton!

 

– Bota audácia nisso.

 

– Qual é?

 

– Qual é o quê?

 

– O apelido Jorge, o apelido que me deram!

 

– Deputado, eu fico constrangido….

 

– Desembucha logo criatura!

 

– Corno.

 

– Como é que é? Fala mais alto homem!

 

– É corno senhor. Seu codinome na planilha é corno.

 

(Silêncio)

 

– Deputado? O senhor está bem?

 

– Se eu estou bem? O que você acha Jorge? Acabo de saber que fui citado em uma delação feita por alguém que eu considerava um amigo e ainda descubro que meu apelido na famigerada planilha era corno? O que o safado quis dizer com isso?

 

– Bem… acho melhor o senhor ficar sabendo de tudo de uma vez. Sua esposa, a vereadora Clara, também foi citada na delação.

 

– Minha mulher recebia caixa 2? Mas ela nunca me disse nada… e eu repartia meu caixa 2 com ela! Traidora… traidora!

 

– Um absurdo mesmo deputado.

 

– Mas… então ela tem um apelido também?

 

– Sim, ela tem….

 

– Qual?

 

– Amante.

 

(Silêncio)

 

– Jorge… sinto-me apunhalado… como pude ser traído dessa forma tão vil?

 

– Deputado, eu entendo o duro golpe que o senhor sofreu, mas precisamos começar a trabalhar imediatamente na sua defesa. A imprensa já está ligando sem parar, querendo uma declaração sua. Vou ligar para os seus advogados.

 

– Corno e amante …. é muita humilhação Jorge. Estou acabado.

 

– Calma deputado, não há provas concretas contra o senhor, não há nenhuma gravação, somente a palavra do Milton Costa atribuindo ao senhor a alcunha de corno. Tenho certeza que podemos contornar essa situação. Além do mais o senhor tem foro privilegiado, podemos acionar aquele seu amigo juiz e ….

 

– Você não entende Jorge. Não estou preocupado com a acusação de receber caixa 2. Que se dane o caixa 2. Vergonha eu teria se não tivesse recebido doações ilegais de campanha por caixa 2. Todo mundo que é alguém na política recebe caixa 2.

 

– Então se anime deputado. Vai ficar por isso mesmo, tenho certeza. O senhor tem muito apoio entre seus pares!

 

– Como vou encarar meus pares com a pecha de corno? Você acha que alguém vai me respeitar depois disso? Meus eleitores vão votar em um corno?

 

– Mas ninguém precisa saber que sua esposa tinha um acordo secreto com o Milton para receber caixa 2 sem que o senhor soubesse….

 

– Não Jorge, um ladrão tem o respeito de seus pares e a benevolência do seu eleitorado. Mas um corno Jorge? Alguém que foi passado para trás pela própria mulher? Não, um político corno não merece o voto de ninguém.

 

 

Todas as informações e referências citadas neste conto são obra de ficção.