“Por você, faria isso mil vezes.” (Khaled Hosseini)

 

Abro os olhos e sinto a claridade entrando no quarto. Ainda é cedo, então me permito permanecer um pouco mais deitada, afinal será um longo dia. Hoje eu completo 100 anos de vida. Nada mau para uma imigrante que chegou a esse país aos 14 anos de idade trazendo apenas esperança na bagagem.

 

A adaptação foi difícil, eu sei. O trabalho na lavoura de café no interior de São Paulo era duro, mas a educação japonesa não me permitia reclamar. Fui criada para obedecer, e assim eu fiz até que aos 17 anos conheci Jorge e a menina submissa que existia em mim foi dando lugar a mulher determinada que me tornei.

 

Com alguma dificuldade pego o porta-retratos na cabeceira da cama e acaricio a fotografia em preto e branco. Olho para o casal sorridente, com aquele brilho nos olhos que só os apaixonados têm. Uma lágrima escorre pelo meu rosto enrugado.

 

Que falta sinto de você meu amor, apesar de todas as dificuldades, do preconceito e da dureza dos primeiros anos de casamento nunca me arrependi da decisão de fugir com você.

 

 

Naquela manhã eu deixei minha família para trás e perdi-os para sempre, mas você tinha muito mais a perder Jorge, sua decisão de se unir a uma imigrante fez com que seu pai o deserdasse. Eu me lembro bem do quanto você gostava daquela fazenda. Foi sua primeira prova de amor por mim.

 

Mas nós formávamos uma boa dupla, não é? Batalhamos, trabalhamos duro e conseguimos nos estabelecer como comerciantes na capital. No começo com os sabonetes que eu fazia em casa e você vendia. Depois a loja e por fim a fábrica, que você batizou de Kokeshi, o apelido carinhoso pelo qual você sempre me chamou. Mais uma prova de amor.

 

Sim, nós fomos felizes, mas como tudo um dia acaba você teve que partir e há mais de duas décadas vivo somente com sua lembrança. Mas agora não importa mais meu amor, em breve estaremos juntos novamente.

 

– Dona Harumi, a senhora está acordada? Ouço Naira bater de leve na porta.

 

–  Pode entrar. Respondo devolvendo o porta-retratos a mesa de cabeceira.

 

Observo minha acompanhante entrar agitada, abrir a cortina e falar sobre o grande dia e a festa preparada em minha homenagem. Mais tarde chegariam os filhos, os netos, os bisnetos e o membro mais jovem do clã, o tataraneto recém-nascido.

 

Levanto-me da cama devagar, auxiliada por Naira. Não gosto muito de festas mas hoje vou me permitir desfrutar da companhia dos nossos descendentes uma última vez.

 

Sinto uma brisa acariciar meu rosto e por um segundo tenho certeza de sentir sua presença.

 

– Tenha calma meu amor – penso sorrindo – nosso reencontro fica para mais tarde.

 

 

 

*esse conto foi escrito por mim como parte do curso “Oficina de Escrita Criativa” ministrado pela escritora Jana Bianchi e oferecido pela Colégio Técnico da Universidade Estadual de Campinas. O conto deveria ser produzido a partir de uma fotografia em preto e branco sem nenhuma legenda que retratava uma senhora idosa, com traços orientais.