“E foi assim que começou a famosa Lista Negra: como uma piada. Uma forma de descarregar a frustração. No entanto, ela acabou se transformando em algo que eu nem imaginava” (pag. 85)

 

Bullying, palavra tão presente nos dias de hoje. Ouvimos sobre o assunto na TV, lemos sobre isso nos jornais, ouvimos casos e relatos reais o tempo todo. A palavra está sempre associada a sofrimento e não raro a tragédias.

 

O bullying é um assunto indigesto, mas que precisa ser falado, discutido, tratado. E é isso que a autora Jennifer Brown faz nas páginas de seu livro A Lista Negra. Fala do bullying e de como sua prática pode destruir pessoas e vidas, inserindo um tema tão dramático e com carga psicológica tão forte em uma narrativa juvenil.

 

Bullying, um tema indigesto que precisa ser discutido

 

Valerie e Nick não são alunos populares no Colégio Garvin, longe disso, estão relegados ao lado dos losers, os perdedores. Ele, um rapaz magrelo, meio desengonçado e que gosta de Shakespeare. Ela, uma garota que usa preto, maquiagem gótica e não é de muita conversa. Val e Nick tem poucos amigos e apenas um ao outro para se apoiarem. Convivem diariamente com apelidos maldosos, ameaças e humilhações constantes por parte dos “alunos populares”, as garotas bonitas, os atletas, as líderes de torcida, os caras descolados. Todos acham muita graça em ridicularizar o casal.

 

Um dia Valerie inventa o que chama de lista negra, um caderno onde ela e Nick anotam os nomes de todas as pessoas que lhes fazem mal e que eles gostariam que morressem, que sumissem da face da Terra. Para Val, a lista era apenas uma maneira de extravasar, de descarregar o sofrimento e a frustração. Mas para Nick, a lista toma proporções inesperadas. A partir de então a vida de Valerie e de todos os alunos do Colégio Garvin sofre um abalo muito grande. Uma tragédia marcará suas vidas, suas memórias e seus futuros para sempre.

 

“Não precisamos ser sempre perdedores Valerie. Eles podem querer que a gente se sinta assim, mas nós não somos perdedores. Às vezes também ganhamos.” (pag. 60)

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

Impressões

 

A narrativa alterna passado e presente, mostrando fatos que aconteceram antes da tragédia, como era a vida e o relacionamento de Val e Nick e suas relações com os demais alunos e suas famílias e o presente, com o que aconteceu após tudo isso. A narrativa também é permeada por reportagens publicadas no jornal local da cidade onde moram, e nos ajudam a entender os acontecimentos daquele fatídico dia.

 

A trama de Jennifer Brown é densa, e nos leva a mergulhar – literalmente – no universo de uma pessoa que sofre bullying, o que ela sente, como isso a afeta e quais as consequências em seu comportamento. A luta de Valerie para tentar se reerguer, enfrentar seus traumas e medos e encontrar o caminho de volta para ela mesma é comovente. E você vai chorar em muitos momentos.

 

“A escola ainda não tinha decidido se eu era vilã ou heroína e acho que não posso culpá-los. Eu mesma estava tendo dificuldade para resolver isso.” (pag. 13)

 

Paralelo ao drama íntimo de Valerie temos o impacto que os acontecimentos causaram a todos ao redor dela, sua mãe que tenta protegê-la, mas ao mesmo tempo a culpa pelo que aconteceu. O pai, distante e incapaz de conversar com a filha. O irmão mais novo, que tenta apoiar a irmã, mesmo tendo momentos de dúvida com relação a ela. A melhor amiga, que agora só quer ficar longe dela e seus desafetos, os alunos que eram alvos de sua lista negra e que parecem querer que ela pague pelo que houve.

 

A visão apresentada sob a perspectiva de Valerie nos permite compreender os motivos que levaram Nick ao ponto em que chegou. Claro que não é possível concordar com seus atos, mas entender, sentir na pele e se colocar no lugar deles sim. E é uma experiência dolorosa, mas necessária.

 

A Lista Negra vai fundo no tema e mergulha no ambiente, muitas vezes hostil, das escolas e da relação entre os adolescentes. Nos chama a atenção para as consequências que tanto os que sofrem como os que praticam bullying poderão enfrentar e para a necessidade de pais, professores e toda a sociedade estar atenta aos primeiros sinais, a fim de evitar tragédias.

 

Por fim, um livro com temática forte, mas que deveria ser lido por todos, especialmente pelos adolescentes, que infelizmente estão envolvidos com frequência ora como vítimas, ora como algozes em casos de bullying. Um livro excelente para ser discutido nas escolas e nas famílias.

 

Créditos da foto: Leia com a gente

 

Citações que me marcaram

 

“A verdade era que não conseguia me sentir grata, não importa o quanto tentasse. Em alguns dias, não podia nem mesmo dizer como me sentia. Às vezes triste, às vezes aliviada, às vezes confusa, às vezes incompreendida. E muitas vezes brava.” (pag. 15)

 

“Às vezes, em um mundo onde os pais se odeiam e a escola é um campo de batalha, era ruim ser eu. O Nick havia sido minha fuga. A única pessoa que me compreendia. Era bom fazer parte de um “nós”, com os mesmos pensamentos, os mesmos sentimentos, os mesmos problemas.” (pag. 29)

 

“O que eu realmente quis dizer foi que eu iria sair de fininho e me sentar sozinha em outro lugar onde ninguém me incomodaria e, ainda mais importante, onde eu não incomodaria ninguém.” (pag. 59)

 

“Era um sorriso inumano. Mas em algum lugar em seus olhos – juro que vi a feição verdadeira. Como se o Nick que eu conhecia estivesse lá, em algum lugar começando a sair.” (pag. 67)

 

“Dobrava-me como uma bola e, depois que meu corpo parava de se dobrar, minha alma continuava. Dobrava-me, dobrava-me e dobrava-me até me tornar algo apertado, enrolado, minúsculo.” (pag. 90)”Aprendi a conter a raiva, a forçá-la para o fundo da minha cabeça, esperando que ela se dissolvesse e desaparecesse. Aprendi a fingir que a raiva já tinha passado.” (pag. 116)

 

“Isso é natural. Eu também teria ficado com raiva. Ficar com raiva não é igual a ser culpada.” (pag. 131)

 

“- Um é meu número favorito -sorriu Bea – Em inglês, a palavra “um” tem o mesmo som do passado de “vencer” e podemos todos dizer no final do dia que vencemos de novo, não podemos? Em alguns dias, chegar ao fim do dia é uma grande vitória”. Pág. 178,

 

“- O tempo nunca acaba […]. Como sempre há tempo para a dor, também sempre há tempo para a cura.” Pág. 179

 

“Às vezes, mesmo as coisas que você espera que vão acontecer podem magoar.” (pág. 200)

 

“De certa forma, Nick estava certo: às vezes, todos temos de ser vencedores. Mas o que ele não entendeu foi que todos temos também se ser perdedores. Porque não se consegue uma coisa sem outra. (pag. 264)

 

 

Para finalizar quero compartilhar o clipe de uma música que não me saiu da cabeça durante a leitura do livro. Numb da banda norte-americana Linkin Park não fala diretamente sobre bullying, mas retrata o sofrimento de se sentir isolado e não aceito pelas pessoas que o cercam. Um casamento perfeito com a temática do livro.

 

Até a próxima bibliófilos! E continuem lendo com a gente!